Dica de leitura: Transplantes simultâneos salvam a vida de duas pessoas no Recife

Dica de leitura: Transplantes simultâneos salvam a vida de duas pessoas no Recife

Essa é uma notícia que quis compartilhar com vocês pela sua importância em termos de avanços tecnológicos, mas também porque me toca de forma especial. Esses avanços poderiam ter salvo a vida do meu pai, que faleceu devido a uma grave doença no fígado. É inevitável não pensar nisso quando leio essa notícia, mas também me acalenta o coração saber que muitas vidas estão sendo salvas graças ao empenho e à dedicação de profissionais como o dr. Cláudio Lacerda, a quem quero saudar e parabenizar por mais esse passo significativo.

Luciana 

Transplantes simultâneos salvam a vida de duas pessoas no Recife

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Andrea Cavalcanti e Horácio Calil festejam a recuperação com o médico Cláudio Lacerda (Foto: Moema França/G1)

Moema França
Do G1 PE

Após 15 horas de cirurgia, as vidas de Andrea Cavalcanti, de 44 anos, e Horácio Calil, 64, (na foto com dr. Cláudio Lacerda) mudaram significativamente. É que os dois passaram por um transplante de fígado por meio da técnica “dominó”, também conhecida como “repique”, em que dois transplantes são realizados simultaneamente. A cirurgia foi feita no Recife no dia 29 de julho e, nesta quarta (6), os dois receberam alta do Hospital Jayme da Fonte, na Zona Norte da cidade.

Andrea é portadora de polineuropatia amiloidótica familiar (PAF), uma doença degenerativa que começava a prejudicar o movimento de suas pernas. Ela recebeu o fígado de um paciente cuja morte cerebral havia sido diagnosticada. Além de receptora, Andrea doou seu fígado para Horácio, que tinha colangite esclerosante primária, doença autoimune causadora de muita coceira e um cansaço severo. Horácio pode desenvolver a doença de Andrea, mas somente dentro de 30 anos. Não seria possível transplantar o fígado dela para um paciente jovem, por causa do risco de a doença aparecer cedo.

O fígado que foi doado para Andrea veio de Natal, no Rio Grande do Norte. No total, foram feitos quatro procedimentos cirúrgicos em cerca de 15 horas, envolvendo 22 profissionais no Recife e em Natal. O transplante normal, em que apenas uma pessoa recebe o órgão, dura, em média, de seis a oito horas.

É um caso especial em que uma mesma pessoa é receptora e doadora ao mesmo tempo. O fígado dela [de Andrea] é absolutamente perfeito, exceto pelo defeito congênito que leva a uma doença degenerativa. Cerca de 30 anos depois que a pessoa nasce, ou depois que o órgão é transplantado, a doença começa a aparecer”

De acordo com o médico Cláudio Lacerda, Andrea precisava de um novo fígado para não perder os movimentos, pois sua polineuropatia amiloidótica familiar causou problemas nas pernas. Ela estava na fila de transplante há oito meses. Já Horácio mora em São Paulo e estava na espera pelo órgão há três anos. Os dois foram avisados das condições do procedimento e as famílias se conheceram na sala de espera da cirurgia.

“É um caso especial em que uma mesma pessoa é receptora e doadora ao mesmo tempo. O fígado dela [de Andrea] é absolutamente perfeito, exceto pelo defeito congênito que leva a uma doença degenerativa. Cerca de 30 anos depois que a pessoa nasce, ou depois que o órgão é transplantado, a doença começa a aparecer”, explica o cirurgião Cláudio Lacerda, que comandou a equipe de 18 profissionais no procedimento. Segundo ele, a doença só vai se manifestar em Horácio quando ele tiver mais de 90 anos. “Vai demorar para ele ter, mas até lá, a qualidade de vida fica normal. Se for o caso, pensamos em um novo transplante de fígado”, aponta.

A recuperação dos dois segue tranquilamente. “Já tivemos até uma briga”, brinca a esposa de Horácio, Valcir de Oliveira Guerra. O esposo conta que tinha “problemas éticos” em saber que era preciso ter o órgão de uma pessoa já falecida para que sua saúde melhorasse. “Eu conheço a vida, tenho 64 anos já, e sei que o que eu não usar a terra vai comer. Mas preferia que não fosse assim. Gostei desse procedimento porque recebi o órgão de uma pessoa que está viva, a Andrea, com quem tenho uma relação muito cordial”, explica.

Horácio e Valcir explicam que vieram para o Recife depois que o médico que os atendia em SP indicou Cláudio Lacerda. “A diferença é que aqui eu teria chances de ser transplantado mais rapidamente. Lá em São Paulo meu caso não seria considerado como prioridade por causa do modelo de urgência que eles usam”, diz o paciente, que depois de três anos na espera por um fígado se tornou bem informado sobre o procedimento.

Ele trabalhava como músico em uma banda e tinha um comércio no bairro da Vila Mariana, trabalhos que teve que abandonar por causa dos sintomas da doença. “Tive uma coceira insuportável por muito tempo. O cansaço também me atingiu muito, não conseguia levantar meu dedo”, conta. Essa coceira, segundo Cláudio Lacerda, já fez alguns pacientes que têm colangite esclerosante primária cometerem suicídio.

As famílias dos pacientes se conheceram na espera da cirurgia. “Demora demais, ficamos impacientes, e aí começou o vínculo de amizade. Seu Horácio é uma figura, já trocamos e-mail e telefones, vamos manter essa relação”, comenta Jorge Augusto de Lima, esposo de Andrea. A paciente tem dois irmãos que já passaram por transplante de fígado, mas como demoraram a diagnosticar o PAF, ficaram com sequelas.

Doações e estatísticas

Ao longo dos 15 anos de existência da Unidade de Transplante de Fígado, uma parceria entre os hospitais Jayme da Fonte, Oswaldo Cruz e o Instituto Materno-infantil de Pernambuco (Imip), foram realizados oito transplantes com a técnica “dominó”. Segundo Claudio Lacerda, essa é uma técnica aplicável somente em transplantes do órgão.

Desde 1999, quando a unidade começou a funcionar, foram feitos 845 transplantes de fígado no estado, a maioria deles no hospital Jayme da Fonte, seguido pelo Imip. De acordo com a Secretaria Estadual de Saúde (SES), do total de 661 transplantes realizados em Pernambuco até junho deste ano, 64 deles foram de fígado. No ano passado, no mesmo período, foram realizadas 60 cirurgias do tipo.

O procedimento é todo pago pelo Sistema Único de Saúde (SUS) e os hospitais Jayme da Fonte, Imip e Oswaldo Cruz estão habilitados para o procedimento. Atualmente, 91 pessoas aguardam na fila de espera por um fígado.

Segundo a SES, qualquer pessoa que não tenha passado por doenças que contaminem ou prejudiquem o funcionamento dos órgãos pode doar seus órgãos. Deixar a família avisada desse desejo ainda em vida é um facilitador do processo. Para que a doação ocorra, é necessário que a morte encefálica do paciente seja confirmada. A morte encefálica é caracterizada quando não há mais atividade no cérebro, mas os órgãos permanecem funcionando com a ajuda de aparelhos. Depois disso, o próximo passo é a permissão dos parentes para que a doação seja feita.

Mais informações podem ser obtidas pelo número 0800.281.2185 ou pelo site da SES.