Eduardo Coutinho: A cultura brasileira está de luto

Eduardo Coutinho: A cultura brasileira está de luto

Registro aqui minha tristeza com a morte de Eduardo Coutinho. Ele que foi, sem sombra de dúvidas, o maior documentarista brasileiro e um dos maiores nomes do cinema mundial. De sua autoria “Cabra Marcado Para Morrer”, sobre as Ligas Camponesas, é um dos principais filmes do cinema brasileiro, Outras joias como “Boca do lixo” e “Edifício Master” além de outras 19 obras fazem parte do legado de observação e extrema atenção àvida humana que ele nos deixa.

A sensibilidade de Eduardo Coutinho e sua verve militante geram uma combinação rara que o tornaram único. A Frente Parlamentar em Defesa da Cultura lamenta essa perda. Toda a Cultura brasileira está de luto.

Sr. Presidente, solicito seja dado como lido um artigo do jornalista e escritor Astier Basílio sobre a vida e a trajetória desse grande personagem da cultura brasileira. Muito obrigada.

PRONUNCIAMENTO ENCAMINHADO PELA ORADORA

EDUARDO COUTINHO: JORNALISMO, CINEMA, TELEVISÃO, TEATRO E POLÍTICA

Por Astier Basílio

Coutinho era um personagem do caderno de cultura. Era cineasta. Chegou, inclusive, de 73 a 75, a ser repórter do luxuoso Jornal do Brasil. A atividade como crítico vem de longe. Era correspondente, em São Paulo, da carioca revista Sequência. Isso em 1956.

Porém, ao ser notícia nos cadernos de cultura, na maior parte das vezes, Coutinho trazia pauta de outros cadernos como o de política, o de cidades; era, o seucinema, um cinema sujo de cotidiano, sujo da realidade. Assim foi em vida. E assim na morte. Sua morte, que em circunstâncias óbvias, renderia obituários nas páginas que sempre frequentou, circulou primeiro no caderno policial, devido à tragédia da qual foi encharcada. Coutinho não era um homem de teatro, mas com ele dialogou. Repare como sua trajetória se embaralhou das linguagens com que habilmente conviveu. Ao vencer um concurso, na televisão, respondendo sobre um personagem do cinema, Chaplin, com o dinheiro obtido, Coutinho seguiu até Paris, onde estudou, em 1960, no Instituto de Altos Estudos Cinematográficos.

Enquanto estudava cinema, com dinheiro propiciado por um concurso de televisão, teve tempo e gana assinar, na França, a direção do espetáculo teatral “Pluft o fantasminha”, de Maria Clara Machado. Em 1961, de volta ao Brasil, faz assistência de direção de Amir Haddad na peça “O quarto de despejo”. Pouco condescendente consigo próprio, da experiência disse o seguinte: “foi um desastre, porque eu não sabia o que fazia um assistente de direção. Então eu anotei, não é? Anotava tudo o que tinha para anotar, todos os movimentos [risos]”. Ano seguinte, 1962, Coutinho entra pro CPC da UNE. Foi assim que tomou contato com a luta das Ligas Camponesas. Filmou um comício. Daí que surgiu a ideia de fazer um filme. De ficção. Com não-atores. Outro cruzamento de linguagens. O título viria de um cordel, “cabra marcado pra morrer”, de Ferreira Gullar. Quando acontece o golpe o projeto é interrompido.

Coragem foi algo que nunca faltou a Coutinho. Era 65 quando prenderam Ênio da Silveira. Intelectuais e artistas brasileiros fizeram um manifesto condenando o ato. Coutinho está entre aqueles que assinam. Era 66. A União Soviética julgava e declarava culpados, unicamente pelo seu trabalho literário, os escritores Anorei Sinyavsky e Yuli Daniel. Houve um igual manifesto de escritores e artistas brasileiros. Coutinho estava entre os que assinaram.

Fez três filmes de ficção, que considerou inexpressivos posteriormente, um deles, uma adaptação de Shakespeare em forma de faroeste brasileiro com cangaceiros e coronéis, a qual colocou o título de “Faustão”. Chegou, inclusive, a atuar, em 66, na comédia “Os mendigos”, de Flávio Migliaccio. Colaborou ainda como roteirista em trabalhos de ficção como e A falecida (1965), Leon Hirszman e Dona Flor e seus dois maridos, de Bruno Barreto (1976). Em 1975, foi para a Televisão. Pra Globo. Fundiu linguagens. Levou o documentário para o formato televisivo. Ficou lá até 1984, quando realizou sua obra-prima, “Cabra marcado pra morrer”. À revista Veja, disse, ao receber o prêmio do I Festival Internacional de Cinema e Vídeo, que “não tinha importância nenhuma”, apenas “tivera a sorte de contar a história de uma família muito particular.
Vale a pena reproduzir o trecho da matéria: “Com o filme finalmente pronto, Coutinho está feliz, desempregado e sem planos. ‘Cabra Marcado é a única coisa que assumo inteiramente das tantas que já fiz”, diz. ‘Pedi demissão da Globo para poder lançar o filme e, depois disso, não sei o que vou fazer(…)”

Em geral, o uso da metalinguagem tem propiciado, aos que assim procedem, um afastamento da realidade; um dar-as-costas ao mundo; um voltar-se para o ofício; um arte-pela arte. Em “Cabra Marcado”, Coutinho prova que é possível, aténeste que pode ser o mais alienante dos recursos, uma ferramente participativa, de uma poética que dialoga com o mundo em volta. Há, em seu documentário, um filme dentro do filme, porém, Coutinho bebe na tradição de Shakespeare que fez uma peça dentro da peça em “Hamlet” não parar fazer uma evasão dos acontecimento; antes para usar o entretenimento como arma de denúncia, pois, o príncipe faz uso do teatro para denunciar o assassinato de seu pai pelo tio usurpador. É que fez Coutinho com a metalinguagem. Deixo aqui que ele próprio fale a respeito. A entrevista foi dada ao Jornal do Brasil, na época do lançamento do filme. “não é um artifício estético, um rebuscamento de linguagem, um filme dentro do filme, como em ‘A Mulher do Tenente Francês’ (…) mas a única forma viável e estimulante de continuar a história”. Os microfones aparecendo; o diretor aparecendo; a voz do autor pontuando as escolhas, tudo isso numa estética que lembra muito o teatro épico de Bertolt Brecht que em vez de ilusionar o espectador instava-o a refletir, a, ele próprio, tomar posição. O elemento teatral, por assim dizer, formatou uma poética minimalista; um olhar Grotovskiano de ‘cinema pobre’, visto não apenas nos potencialmente teatrais “Jogo de Cena” (2007) e “Moscou” (2009), mas na condensação a que chegou em “Canções” (2011), por exemplo. Em Coutinho ética e estética conjugavam os mesmos verbos.