Nó em pingo de éter

Nó em pingo de éter

Nó em pingo de éter 
Luciano Siqueira *

Numa situação adversa, em que a correlação de forças se mostra francamente desfavorável impõe-se – como se diz no jargão político – dar nó em pingo de éter à meia-noite, no escuro, calçando luva de boxe…

E não é uma questão de habilidade. Nem de estilo.

Antes, é uma questão de concepção acerca do exercício da hegemonia e de descortino tático.

Pois há um limite minimamente razoável para se recusar alianças aparentemente incômodas, porém momentaneamente mais do que necessárias, imprescindíveis. Ou seja: a um líder e a uma corrente política hegemônica, impõe-se concertar alianças amplas e diversificadas, esticando a corda até onde seja possível.

Sem preconceitos.

Na Insurreição Pernambucana, as hostes de Felipe Camarão, André Vidal de Negreiros Henrique Dias e Fernandes Vieira guardavam contradições acesas entre si, expressão dos conflitos entre índios, negros escravos, trabalhadores rurais, senhores de engenho e comerciantes, mas foram capazes de formar a ampla frente que derrotou os holandeses em 1649.

Em dimensão maior, na Revolução Popular na China, Mao Tese-tung e o Partido Comunista celebraram aliança como o arquiinimigo Chiang Kai-shek para combater e derrotar o inimigo principal da nação chinesa, o invasor japonês.

Da mesma forma, Ho Chi Minh, que havia fundado o Partido Comunista e a Frente de Libertação Nacional da Indochina arrostando o colonizador francês, foi capaz de se aliar aos franceses quando estes já abandonavam a região, derrotados, para juntos enfrentarem o novo inimigo principal, o imperialismo japonês.

Assim é a História da luta política no mundo e em nosso país.

Lula não teria sido eleito em 2002 e reeleito em 2006 sem alianças amplas, tendo inclusive na sua chapa, como vice, um dos maiores industriais do país. Da mesma forma, Dilma não teria vencido em 2010 e em outubro passado.

Essas referências vêm a propósito da ingente necessidade da presidenta Dilma e das forças que a apóiam buscarem uma pactuação com partidos representados no Congresso Nacional, com os movimentos sociais e instâncias diversas do empresariado, da intelectualidade e da comunidade técnica e científica em torno da preservação da ordem democrática e da superação das dificuldades momentâneas da economia, da garantia do emprego e dos direitos fundamentais dos trabalhadores e da retomada do crescimento.

Mas com o olhar de quem milita numa corrente de inequívoco apoio e solidariedade à presidenta – o PCdoB – e observa o evolver dos acontecimentos cá da província, tenho pra mim que os sinais emitidos do Planalto ainda são tímidos nessa direção.

Parece que há uma disposição “seletiva” na busca da nova pactuação.

A escolha do novo ministro da Educação sugere que o governo prioriza um entendimento com segmentos da sociedade à margem dos partidos e em sintonia com o ambiente da “não-política” (ainda que sejam reconhecidas as credenciais do professor Renato Janine Ribeiro).

Cabe perguntar: é possível conquistar condições de governabilidade pelo menos razoáveis em colisão com o principal aliado, o PMDB? É possível governar em conflito permanente com a maioria do Congresso?

Por aí se identifica o caminho para a continuidade ou a superação da crise política.

* Médico, vice-prefeito do Recife, membro do Comitê Central do PCdoB