Debate: O ‘OVO DA SERPENTE’ E OS DESAFIOS DA ESQUERDA

Debate: O ‘OVO DA SERPENTE’ E OS DESAFIOS DA ESQUERDA
auditoriolotado
Por Felipe Bianchi
Para Barão de Itararé

Se o ovo da serpente anuncia tempos sombrios para a democracia, o bicho já rompeu-lhe a casca. A metáfora dá nome ao livro de Roberto Amaral – A serpente sem casca: Da crise à Frente Popular (Ed. Altadena), lançado durante debate realizado no Centro de Estudos da Mídia Alternativa Barão de Itararé, em São Paulo, nesta segunda-feira (28).

Ex-presidente do PSB, Amaral contou com a companhia do ex-governador do Rio Grande do Sul, Tarso Genro, e da deputada federal e presidente do PCdoB, Luciana Santos. Os debatedores falaram sobre o avanço do conservadorismo no Brasil, o papel decisivo da mídia hegemônica nesse processo e os caminhos para que a esquerda brasileira não seja ‘aniquilada’.

Segundo Amaral, é inegável que o país atravessa uma crise política profunda, “da qual o sofrimento da presidente Dilma Rousseff, a angústia do governo e a ingovernabilidade generalizada constitui apenas um aspecto”. Para ele, o paralelo histórico com as décadas de 1950 e 1960 é inevitável. “A história, no Brasil, é recorrente: o processo de tomada de poder pela direita repete um manual de ações, item por item”, opina, fazendo referência às derrubadas de Getúlio Vargas e João Goulart.

A semelhança do cenário dos meios de comunicação em ambos os períodos com o da atualidade é evidente, aponta Amaral. “Todos os jornais – Estadão, Diário de São Paulo, Jornal do Brasil, Correio da Manhã – faziam campanha contra Vargas. Em 1954, o alvo era o ‘mar de lama’ de Getúlio, em uma campanha óbvia contra a nacionalização do petróleo e o desenvolvimento nacional”, defende. “Em 1964, anunciando a defesa da democracia e da Constituição, plantou-se a ditadura militar. Hoje, o discurso é derrotar Dilma e Lula”.

Amaral evoca os exemplos vividos por Alemanha e Itália poucos anos antes da ascensão do nazifascismo, quando a esquerda mirou adversários errados e ‘caiu no golpe’, para expressar sua preocupação com a fragmentação de um campo sob ataque. “Quem estava ao lado da UDN e de Carlos Lacerda? Nós, os comunistas. É preciso fazer essa autocrítica”. Temeroso, Amaral alerta: “Os que estão hoje, em nosso próprio campo, festejando a tentativa de matar o PT e o governo, festejem brevemente, pois logo não haverá o que comemorar. O projeto é de aniquilação da esquerda brasileira”.

Na visão do cientista político, a discussão sobre ser ou não ser possível defender o governo é inócua: “O que eu digo é que se queremos um novo programa econômico para rechaçar o ajuste, precisamos fortalecer o governo. Ele não pode ficar refém nem do paradoxo da direita, nem do paradoxo da esquerda”. A desmobilização e a política de recuo, aponta Amaral, levará à rendição. “Só há uma forma de a direita se render: saber que o preço será muito alto, que encontrará resistência e que será muito mais difícil que 1964”.

De volta à metáfora da serpente que batiza seu novo livro – a obra reúne artigos sobre crise política, mídia e a Frente Brasil Popular –, Amaral explica que a serpente sem casca remete à ‘obra-prima’ do cineasta Ingmar Bergman. “O ovo da serpente é tão leve e tão fino, que vemos o embrião da serpente. A serpente não nasce serpente, mas está diante de nós: ou matamos o embrião ou teremos de viver com ela”.

À esquerda, pôster do filme lançado em 1977, que reflete sobre a ascensão do nazismo em uma Alemanha economicamente devatadada. À direita, a capa do livro de Roberto Amaral.À esquerda, pôster do filme lançado em 1977, que reflete sobre a ascensão do nazismo em uma Alemanha economicamente devatadada. À direita, a capa do livro de Roberto Amaral.

Em busca do tempo perdido

Presidente do PCdoB, Luciana Santos lamentou a falta de enfrentamento do governo à questão do monopólio midiático, extremamente partidarizado. “Não fomos capazes de debater, disputar ideias e politizar a sociedade”, sublinha. “Mesmo com milhares de avanços sociais, os meios de comunicação insistem em reescrever a história à sua maneira”. Os efeitos, em termos políticos, são devastadores: os ‘inseridos’, que se beneficiaram diretamente das políticas dos últimos 12 anos, não atribuem tais conquistas ao processo, mas à meritocracia. “Não tivemos a percepção devida do fenômeno que vivemos frente a tantos ganhos. É óbvio e natural que quando há ganhos, a população desejará mais”.

A democratização da comunicação é apenas uma das reformas estruturantes que o país deixou de fazer, acrescenta Santos. “Apesar da inclusão social e do enfrentamento às desigualdades, fomos, com Lula, e somos, com Dilma, um governo em disputa. Por isso, pagamos por não ter feito reformas como a política e a do Judiciário”.

O desafio, agora, é resistir à onda conservadora e retomar um projeto de esquerda para o país. “Muito se diz para explicar esse fenômeno de ódio e intolerância que vivemos”, argumenta, “mas não é uma crise exclusiva do PT”. Segundo a deputada federal, o momento coloca em xeque um projeto e uma visão de país. “Processos de mudanças no Brasil sempre foram longos, tortuosos e graduais, com raros momentos de grandes rupturas”, recorda. “A velha correlação de forças nos coloca, outra vez, essa questão: em que instância podemos avançar e derrotar a conjuntura?”.

Para a pernambucana, o primeiro passo é fazer a luta de forma incessante ‘nas redes, nas ruas e na Câmara’. “É preciso, sim, fazer a crítica da política monetária, mas que seja uma luta de conteúdo, com firmeza e convicção, sem titubear quanto à defesa da democracia”, coloca. “Se a democracia for comprometida, tomaremos uma ‘pisa’ ainda maior. Se perdermos, toda a esquerda será trucidada”.

Remédios contra a ‘direitização’ do mundo

Ex-governador do Rio Grande do Sul e ex-ministro do governo Lula, Tarso Genro avalia que o processo de ‘direitização’ já consolidado na Europa tem chegado de forma agressiva à América Latina. No velho continente, ele cita o caso do ‘refluxo’ vivido pelo Podemos na Espanha e da opacidade do heroísmo grego, liderado pelo Syriza. “Há um cerco feroz e brutal do capital não ao socialismo, mas a qualquer experiência democrática mais ousada”.

A captura do Estado de Direito pelo sistema do capital financeiro é outro fenômeno longe de ser exclusivo no Brasil, salienta Genro. “Não há nenhum Estado hoje que exerça sua soberania política sem levar em consideração os ditames do capital financeiro, provenientes dos bancos centrais”, diz. “Isso destrói, por dentro, o Estado de Direito, relativizando direitos fundamentais e esvaziando o debate público”.

O quadro, agravado pela “fragmentação das classes sociais” e pela ascensão de uma “base fascista”, é amplamente desfavorável à esquerda. “Estamos remando contra a maré e o enfrentamento deve ser pensado no cotidiano”, opina. “As mídias alternativas, os blogs e o ativismo digital, somados às manifestação de rua, são fundamentais nessa batalha”.

A luta, de acordo com Genro, não pode se limitar a derrotar o avanço conservador. “Ao mesmo tempo em que se defende a democracia, é preciso pensar no futuro. Esse tipo de coalizão, de frente política que concebeu os governos dos últimos 12 anos, ainda existe ou está se dissolvendo? Para mim, já está dissolvido”, comenta. Iniciativas como a Frente Brasil Popular, segundo ele, também têm o dever de pensar novas plataformas para um novo programa de esquerda ao país.