“Prefeita do Frevo”

“Prefeita do Frevo”
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Em artigo publicado na Folha de Pernambuco em 18/03/2013 a deputada Luciana Santos fala sobre cultura e sobre a importância de cuidar, proteger e desenvolver o patrimônio cultural nas cidades. Aproveitando a carona do Dia do Frevo a gente republica este artigo e pergunta: O que você achou? Responda no Facebook ou no nosso aplicativo.

 

“Prefeita do Frevo”*

Pernambuco continua firme no caminho pela valorização do seu patrimônio cultural. A Câmara de Vereadores do Recife iniciou um saudável debate sobre a instituição do momento do frevo nas rádios da cidade. Para além da valorização da nossa cultura, se institui a necessária discussão sobre as formas de perpetuar esse nosso tesouro, que tem também o honroso título de Patrimônio da Humanidade.

Pequenas ações como essa podem se constituir em passos estratégicos, decisivos para a proteção da nossa cultura.  Quando recebi, durante mais uma das reuniões de líderes partidários sobre a reforma política, a notícia de que a assembleia da Unesco havia incluído o nosso frevo como patrimônio imaterial da humanidade pensei justamente na importância desses atos para alcançar objetivos maiores.

Diante da conquista do título da Unesco foi inevitável lembrar alguns momentos dessa caminhada na militância da cultura. Uma ação, em particular, me tomou os sentidos dada a intensidade e a repercussão que obteve na época. Refiro-me aos desdobramentos de uma decisão tomada, ainda em 2001, durante o primeiro mandato como prefeita, de regulamentar o som eletrônico durante o carnaval.

Enfrentávamos um momento delicado. As festas particulares impediam a livre circulação das orquestras de frevo, dos cortejos de maracatu. Era impossível a passagem do maracatu rural de Mestre Salu; não havia mais espaço para os bonecos gigantes, ícones do carnaval de Olinda. Emblemático recordar o choro de Sílvio Botelho, ao ver que seus bonecos estavam impedidos de circular em sua própria Casa, em suas ruas.

Era imprescindível e urgente regulamentar a questão para que não perdêssemos a nossa característica mais marcante de expressão da tradição e da cultura do nosso povo: o carnaval de rua de Olinda. Agimos.

A medida, a despeito de sua relevância, não teve aceitação em muitos setores. A imprensa nacional mobilizou artistas, fez críticas jocosas, tentou territorializar a decisão como se estivéssemos provocando uma guerra entre estados. Uma manchete está em minha memória como símbolo daquele momento. A Isto É Gente escreveu: “Prefeita do Frevo quer acabar com o Axé”.

Apesar da resistência dos setores de visão mais comercial, manter a defesa do patrimônio cultural de Olinda, naquele momento, foi uma tarefa assumida coletivamente e que contou com alguns atores importantes. A agilidade com que a justiça tratou o assunto é digna dos mais francos agradecimentos. Do mesmo modo, sempre que se trata desse tema, é preciso renovar o reconhecimento à equipe da Prefeitura Municipal de Olinda sob o comando assertivo e equilibrado do Procurador Geral Izael Nóbrega. Destacar, também, a atuação do então secretário de Cultura, ex-ministro da Ciência e Tecnologia, professor Sergio Rezende.

Gestores e legisladores têm grande responsabilidade na preservação e no fomento da cultura. Essa compreensão deve permear todos os atos de qualquer pessoa que se dispõe a ocupar um cargo público com o intuito de valorizar sua história, suas raízes e sua produção cultural na perspectiva de garantir um futuro de consciência, reconhecimento, identidade e cidadania para outras gerações.

Esses pensamentos e lembranças vieram à memória enquanto comemorava intimamente mais esse avanço para a cultura brasileira. A manifestação que surgiu da luta e da resistência dos escravos – que com seus sons e golpes de capoeira deram origem a essa extasiante expressão cultural – ganhava mais uma ferramenta de defesa e preservação para que se mantenha viva e segura. É tempo de comemorar. Viva a cultura brasileira!

*Luciana Santos é Deputada Federal pelo PCdoB/PE e coordenadora da Frente Parlamentar de Cultura para Pernambuco. Foi deputada estadual, prefeita de Olinda por dois mandatos consecutivos, e secretária de Ciência, Tecnologia e Meio Ambiente de Pernambuco.

Artigo publicado no jornal  Folha de Pernambuco em 18/03/2013