Pronunciamento – Registro de falecimento de Naná Vasconcelos

Pronunciamento – Registro de falecimento de Naná Vasconcelos

Senhor Presidente;
Senhoras deputadas;
Senhores Deputados.

Na manhã desta quarta-feira faleceu em Recife o músico, percussionista, Naná Vasconcelos, um dos maiores instrumentistas do nosso país. Gostaria de registrar nos anais dessa Casa essa lamentável perda.

Naná, além de grande músico é um ícone da cultura pernambucana. Ativista cultural reconhecido internacionalmente, grande defensor das tradições e raízes da cultura brasileira.
O meu sentimento, assim como do povo pernambucano, é de uma imensa perda, a despeito da grandeza do legado que Naná Vasconcelos nos deixa, um legado que atravessará os tempos e, certamente, não deixará nosso povo órfão de suas pesquisas, de suas invenções musicais, de seus sons, de seus tambores sublimes.

Deste modo, quero deixar aqui minha solidariedade e meu abraço fraterno a Patricia, sua esposa, a Jasmin e a Luz Morena, suas filhas, e pedir que esta Casa me acompanhe nessa homenagem e nesse voto de pesar.

Muito obrigada.

PARA DAR COMO LIDO
Naná Vasconcelos

Juvenal de Holanda Vasconcelos, conhecido como Naná Vasconcelos, músico e compositor é reconhecido internacionalmente como o maior percussionista do mundo. Naná é pernambucano do Recife, nasceu no dia 2 de agosto de 1944. Seu pai, também músico, tocava manola, uma espécie de violão de quatro cordas com amplificador.

Aos 12 anos, Naná já tocava bangô e maracás nos bailes do clube misto carnavalesco Batutas de São José, que ficava na rua da Concórdia. Por causa da idade, Naná precisava de autorização de seu pai para tocar nos bailes e não podia nem descer do palco.

Foi percussionista da Banda Municipal do Recife. Tocou maracás também em gravações na Rozenblit, em discos de frevo com Nelson Ferreira e acompanhou algumas vezes os cubanos da Sonora Matancera, com Bievenido Granada, El Bigode que canta, que vinha gravar no estúdio da Estrada dos Remédios.

Hoje é mestre do berimbau, conhecido instrumento de percussão, de origem africana, com o qual se acompanha a capoeira. Começou a se interessar pelo berimbau, casualmente, depois de participar do musical folclórico Memórias de Outros Cantores, realizado em 1966 no Recife.

Antes de Naná, a percussão limitava-se aos tocadores de pandeiros, tambores, tumbadores, maracás e bangôs. Naná percebeu as possibilidades do berimbau e empenhou-se em explorar todas as potencialidades do instrumento.

Uma de suas principais inspirações veio ao escutar Jimi Hendrix. O senso de liberdade que impregnava o trabalho do guitarrista americano mostrou-lhe as ilimitadas possibilidades do seu instrumento. Passou a tocar vários ritmos no berimbau, transportando a técnica usada na bateria para o instrumento, até então, usado apenas na capoeira.

Viajou para o Rio de Janeiro em 1968, com uma passagem de ônibus presenteada por Capiba.

Em 1969, no Rio de Janeiro, Naná Vasconcelos tornou-se o percussionista preferido pela maioria das estrelas da MPB (Música Popular Brasileira) e do rockudigrudi da cidade. Gravou com Milton Nascimento, Jards Macalé, Luiz Eça e a Sagrada Família, Som Imaginário, Gal Costa, Os Mutantes. Ao vê-lo tocando berimbau com Milton Nascimento, o argentino Gato Barbieri convidou Naná para participar das trilhas que compunha para os filmes Pindorama, de Arnaldo Jabor, e Minha namorada, de Zelito Viana.

Com Barbieri, Naná ganharia o mundo, mas antes gravou, na Argentina, um LP (long-play), disco fonográfico, cuja trilha sonora é gravada em microssulcos, hoje substituído pelo CD (disco óptico), intitulado El incredible Naná com Augustin Perreyra Lucena.

Do Rio de Janeiro foi em 1970, morar no exterior, primeiro na França, depois em Nova York, de onde passaria a administrar sua carreira de músico internacional.

Com mais de 35 anos gravando e tocando em vários lugares do mundo, Naná Vasconcelos já ganhou muitos prêmios, entre os quais o Grammy, em 1977, com Egberto Gismonti, no álbum Danças das Cabeças. Sua discografia aumenta cada vez mais, principalmente depois que voltou para o Brasil, em 1980.

Tem gravado discos individuais com mais freqüência e toca com todos os músicos que o convidam. Tanto faz tocar com conhecidos cantores regionais, quanto com o mais famoso nacional ou internacional, criando seus cenários e climas percussivos.

Já tocou com celebridades como Miles Davis, Dom Cherry, Theloníus Monk, Jean-Luc Ponty, B.B. King, Gato Barbieri, Mongo Santamaría, Talking Heads, Pat Metheny. Sua obra é mais conhecida no exterior do que no Brasil. Conseguiu revolucionar o papel do percussionista e é talvez o único músico que lota teatros de todo o mundo se apresentando sozinho, apenas com instrumentos de percussão.

Faleceu no Recife no dia 9 de março de 2016.

Fonte: Fundação Joaquim Nabuco
Maria do Carmo Andrade
Bibliotecária da Fundação Joaquim Nabuco