Renato Rabelo: A volta aos tempos de chumbo?

Renato Rabelo: A volta aos tempos de chumbo?

E’ insólito o que passamos a viver nas paragens deste grande país, o Brasil. Nessa passagem têm questões de fundo, circunstâncias surgidas no curso político nacional, cegueiras, ilusões e erros, que vão surgir gritantes e mais evidentes depois. Contudo a questão é agora, a situação emergencial, gritante, neste momento de véspera do final do segundo turno da eleição para a Presidência da República.Toda Nação está diante de um entroncamento histórico: da lucidez ou da escuridão, da força civilizatória ou da barbárie, de novo tempo ou a volta ao anti-iluminismo antes da modernidade.

O candidato Jair Bolsonaro mostra de corpo inteiro sua medonha concepção, vazada em anti-ideias, faladas em anti-palavras. Na sua manifestação aos seus apoiadores na Avenida Paulista, em São Paulo, no fatídico domingo passado, deixou esparramar –estúpido, agressivo e brutal — que se prepara para ser um ditador, e a formação de seu governo é modelado no totalitarismo e no modo de tirania. É incrível o que afirma, prepotente, se distanciando da índole humana, tornando a política uma expressão por outros meios da violência e do esmagamento de quem não segue sua cartilha – é sumariamente preso ou deportado. Ameaça, convicto, seus opositores, como se já estivesse no centro do poder da República, como ele próprio já se sagrasse como poder judiciário… E, por dedução, o que ele quer que seja o poder legislativo? Ele exala um caráter de demolidor das instituições. Indo ao ponto, como ele se vê: “as instituições, sou eu”.

Então, que doutrina é essa — que já afirma em alto e bom tom para seus eleitores — que vai varrer seus opositores, o seu competidor será preso e vai apodrecer na prisão, junto com o maior líder político e popular do país, e as instituições podem ser meras imagens. Mesmo sua visão sendo opaca, isso quer dizer: um Estado de exceção, uma forma de totalitarismo, uma ditadura nos moldes fascistizantes. E o que é pior? A sua doutrina totalitária tem sua fonte no “porão” da ditadura implantada em 1964 – Bolsonaro faz aberta e declarada apologia da tortura e distingue um dos maiores verdugos desse período ditatorial como “herói nacional”. Nem mesmo o torturador declara seu ato infame da tortura, esconde, tergiversa. Ele não, faz questão de defender a tortura como forma de luta – é um personagem despótico e sombrio.

É esse candidato com esse caráter, essa índole repulsiva, que alcançou o segundo turno das eleições, que pretende por todos os meios vir a ser presidente da República Federativa do Brasil. Bolsonaro que não apareceu nos debates, camuflou-se, sobretudo no período do segundo turno, quando mais se poderiam ter vários embates candidato a candidato, sendo momento decisivo para a comparação de ideias e programas, onde o povo e os órgãos de comunicação poderiam desvendar quem são os candidatos que poderão vir a ser presidentes da República. Além disso, fez uso de uma verdadeira usina de produção de Fake News, notícias falsas e fatos remodelados, numa clara orientação de confundir, de vender uma imagem falsa para detratar o opositor, através de investimentos de grandes recursos tecnológicos modernos para esses fins escusos, denunciados até pela grande mídia. Tal situação pôde tomar conta de parcela significativa da população, por meio de um programa do candidato Bolsonaro que não aparecia de corpo inteiro, numa aparência lusco-fusco, volátil, se aproveitando inteiramente do senso comum, forma simples de esconder e não enfrentar a essência das coisas.

Nessa última semana do 2º turno eleitoral, e mesmo com o candidato fugindo de revelar-se, tocaiado, mas em alguns pronunciamentos pontuais, vazou seu ímpeto autoritário-absolutista, como no seu pronunciamento na Avenida Paulista, e o sério trabalho jornalístico e militante de revelar suas ideias e opiniões durante seus sete mandatos como deputado federal (sic), que permaneciam escondidos para parcelas maiores da população – e ainda grandes camadas do povo não chegou a conhecê-lo além das aparências.

No entanto, essa viragem nas pesquisas que se iniciou nesses últimos cinco dias reflete que parcelas maiores dos eleitores passaram a ter acesso aos fatos que identificam a trajetória e idéias do candidato Bolsonaro. A ameaça à democracia e a volta a um regime ditatorial passou a impactar a todos os democratas, patriotas, liberais sensatos e até os possuídos de convicções anti-violência. Foi ganhando amplitude na campanha a disjuntiva: defesa da democracia e do Brasil ou a volta da ditadura e a venda do país. Para muitos deixou de ser: PT ou anti-PT. Passou a estar em jogo um princípio maior, a liberdade e a democracia, o destino civilizacional da Nação brasileira.

Muitas personalidades representativas de instituições e de dos vários setores sociais passaram a se entregar à defesa da democracia, se pronunciando a favor da candidatura de Fernando Haddad, como o único meio de defenestrar a grave ameaça de retrocesso e ruptura à democracia. E a candidatura de Haddad e Manuela passaram a assumir maior protagonismo na defesa da liberdade e da democracia, dos valores civilizacionais, da defesa do Brasil e dos direitos do povo.

A hora é de união ampla com o objetivo de abrir caminho e horizonte que pode decidir a eleição à presidência, a favor da democracia e contra a tirania e o totalitarismo. A eleição de Haddad e Manuela é o caminho para isso. Aos que compreendem ser a situação natural, dizendo que um e outro são extremos, pode-se votar nulo ou em branco, respondo com Bertold Brecht: “Não digam nunca:/ Isso é natural!/Para que nada/ Possa ser imutável”.