Trabalho Infantil: Basta uma mão e eles vão longe

Trabalho Infantil: Basta uma mão e eles vão longe
TrabInfAndreNery

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Somente uma chance. É o que crianças e adolescentes em situação de vulnerabilidade precisam para se firmarem, para se tornarem adultos gozando de todos os direitos e deveres, e terem uma velhice tranquila. Na quarta e última reportagem da série Trabalho Infantil Urbano, a Folha de Pernambuco traz histórias de superação, repleta de sonhos conquistados. Adolescentes que se viram obrigados a trocarem os livros por um ofício e assim garantir o sustento da casa. Mas, que na árdua caminhada, foram presenteados com uma oportunidade e hoje podem seguir determinados a um futuro promissor. Eles fazem parte do Programa de Aprendizagem do Governo Federal, onde Pernambuco já tem um Exército de 11.275 mil aprendizes.

Cicatrizes ainda marcam os braços e pernas de Thalyta Ribeiro de Souza, de 16 anos. Há um ano e meio, a adolescente começou a trabalhar em uma cozinha de um pequeno restaurante no bairro onde mora, Torrões, na Zona Norte do Recife. O serviço era árduo. Entre os materiais usados, facas, frigideiras e bastante óleo quente. As queimaduras eram rotina na vida da jovem, que conheceu o peso da responsabilidade de sustentar um lar muito nova. Thayrone dos Santos e José Augusto de Lima, ambos com 15 anos, também faziam parte dos quase três milhões de menores explorados pelo trabalho infantil no País. Atualmente, os três integram o programa “Jovem Aprendiz” e dizem ter mais perspectiva de vida, com sonhos realizados e planos para o futuro.

Crianças e adolescentes oriundos de famílias de baixa renda são vítimas constantes do trabalho infantil irregular. Uma característica é comum entre eles: a vontade de trabalhar. Com o Brasil ainda em desenvolvimento, os subempregos tornam-se uma alternativa a quem busca melhores condições de vida. Satisfeitos, esses pequenos trabalhadores acreditam que receberam uma oportunidade, mas, sem carteira assinada e sem direitos trabalhistas, acabam labutando cerca de nove horas diárias durante toda a semana.

O salário que Thalyta recebia quando era cozinheira da lanchonete era praticamente todo o sustento de sua família, composta pela mãe e pela irmã mais nova. “Minha mãe nunca trabalhou e, após a morte dos meus avós, arrumei esse emprego para ajudar a pagar as despesas da casa, como feira e conta de luz”, comenta. “Eu trabalhava das 16h às 2h, se faltasse, o proprietário descontava do pagamento”, explica. Fora do extenso horário de expediente, ela procurava mais atividades para complementar a renda do lar, como lavar as roupas de alguns vizinhos por uns trocados. O salário era pequeno: R$ 70 por mês, bem menos do que José Augusto e Thayrone recebiam, R$ 30 por dia e R$ 180 por semana, respectivamente. Atualmente, Thalyta trabalha na recepção da Faculdade Boa Viagem, na Imbiribeira, e diz estar satisfeita. “Quero cursar Direito. Aproveito que estou na FBV para pegar emprestado da biblioteca livros sobre o assunto”, explica animada com a possibilidade de ser advogada, seu maior sonho.

Escondido dos pais, José Augusto de Lima vendia caldinho na praia com o objetivo de ter uma renda a mais para comprar objetos pessoais e garantir certa liberdade. Com 12 anos, foi interceptado pelo Ministério do Trabalho e Emprego (MTE) e começa a atuar como aprendiz de auxiliar administrativo de uma empresa no início de fevereiro. Até chegar a tal ponto, o caminho foi longo. “Muitos não aceitam largar o emprego informal. É preciso fazer um trabalho de conscientização”, informou a auditora do MTE, Paula Neves. “Antes, quando eu vendia caldinho na praia, ficava bastante cansado e acabava dormindo na sala de aula”, lembra José. Ele conta que está muito empolgado com o início do estágio. A mãe dele, Maria das Dores de Lima, é dona de casa. Ela afirma não saber das atividades do filho até a intervenção do Ministério. Agora, ela está bastante orgulhosa.

Assim como Thalyta, Thayrone largou os estudos para trabalhar. Ele parou de estudar aos 12 anos, quando cursava a 5ª série do Ensino Fundamental, após ingressar em um lava a jato. Lá, ele tinha função de fazer o acabamento da limpeza dos veículos, também de domingo a domingo. Matriculado no Ensino de Jovens e Adultos (EJA) em uma escola do bairro de Águas Compridas, periferia de Olinda, ele deve concluir a 8ª série no final de 2014. Como muitos adolescentes, não sabe que profissão visa seguir, mas afirma já ter conquistado um grande sonho: a carteira assinada. Ele trabalha como auxiliar administrativo no Colégio Imaculado Coração de Maria. “Me falaram que, se eu continuasse me dedicando, iria ser contratado quando terminasse a aprendizagem. Fiquei muito feliz”.

De acordo com o coordenador pedagógico do Colégio, Anderson Almeida, o aprendiz amadureceu bastante desde que começou o programa. “Nossa instituição procura dar novas oportunidades a pessoas que precisam. Atualmente, nós temos três aprendizes. Thayrone é um deles. Ele trabalha na gráfica, onde as provas são elaboradas. Ele é muito responsável e está amadurecendo muito”, avalia. “No início era um pouco tímido, mas agora já fez muitos amigos. Estamos pensando na possibilidade de efetivá-lo quando o seu período de aprendizagem for concluído”, declara.

Empregadores são conscientizados

Toda empresa, com exceção das micro e de pequeno porte, são obrigadas a ter aprendizes em seu quadro de funcionários nos valores de 5% a 15% do total de empregados. A intenção do MTE é convencê-las a contratarem os jovens oriundos do trabalho infantil irregular. Para isso, o MTE vem conscientizando os empregadores. Além do esclarecimentos sobre a legislação, os membros das companhias são sensibilizados a contratar os adolescentes retirados do trabalho infantil, sendo-lhes apresentada a possibilidade de certificação pela Superintendência Regional do Trabalho e Emprego (SRTE-PE) como empresa que contribui para a erradicação dessa prática em Pernambuco, conforme explicou Simone. Para a entrega dos certificados é organizado um evento anualmente. Nas reuniões de sensibilização, também são convidadas empresas já participantes do programa, aprendizes e pais para darem depoimentos sobre como tem sido a experiência de participar do programa.

O programa de aprendizagem pode ser desempenhado por jovens entre 14 e 24 anos. Com a adesão, o aprendiz recebe uma bolsa equivalente a meio salário mínimo e precisa frequentar a escola comum e o curso profissionalizante em uma entidade formadora. Há duas entidades formadoras participantes do Projeto de Erradicação do Trabalho Infantil e Incentivo à Aprendizagem Profissional em Pernambuco: o Centro de Integração Empresa Escola de Pernambuco (CIEEPE) e a Escola Dom Bosco de Artes e Ofícios (EDBAO Recife), além das instituições do Sistema S (Senai, Senac, Senar, Senat e Sescoop).