Vamos lutar pela unidade política. Esse é nosso espírito, diz Luciana

Vamos lutar pela unidade política. Esse é nosso espírito, diz Luciana

Em entrevista ao repórter Paulo Veras, do Jornal do Commercio, a deputada federal e presidenta nacional do PCdoB, Luciana Santos, avaliou o quadro econômico e político nacional e estadual, com destaque para os principais temas em debate no governo federal e no Congresso, bem como o andamento das “construções políticas” em curso visando às eleições de outubro deste ano, nas quais serão eleitos prefeitos e vereadores.

“Até julho, muitas mudanças haverão. Até porque as eleições serão muito diferentes este ano. O período de campanha vai ser curtíssimo, não vai ter financiamento de campanha privado. Muitas variáveis ainda estão em desenvolvimento até o prazo das convenções”, afirmou a dirigente comunista.

Leia abaixo a íntegra da entrevista publicada neste domingo (21).

Jornal do Commercio – O PCdoB vai apoiar a reforma da Previdência?

Luciana Santos – Nós temos a compreensão de que esse debate é necessário. Todos os dados indicam que em função do envelhecimento da população brasileira, nós teremos daqui a alguns anos um colapso na Previdência. Agora, nós achamos que existem reformas estruturantes no País mais urgentes, que poderiam impactar nos recursos da própria Previdência.

JC – Quais seriam?

Luciana – A reforma tributária, por exemplo. Ela é muito mais urgente. Nós temos um tributo que penaliza os trabalhadores, os salários mais baixos. E a gente poderia fazer uma reforma que pudesse incidir onde se tem mais renda e mais patrimônio. Isso daria outra equação para as receitas da União. Há também o debate político numa situação em que a presidente precisa resgatar uma relação com a própria base social que a elegeu, que são os trabalhadores.

JC – Há um erro no modo como a presidente está conduzindo o ajuste?

Luciana – Desde o primeiro ano do mandato, quando se pautou aquelas duas primeiras Medidas Provisórias do seguro-desemprego, acho que foi um erro tático. De apresentar medidas que impactavam exatamente na base social que elegeu ela. É tanto que nós tivemos um ministro da Fazenda que durou só um ano. Acho que o que nós vamos persistir é em uma agenda que a própria presidente, paralelamente, também fez. Que são as PPPs, os anúncios de investimento em infraestrutura, para retomar o crescimento. O acordo de leniência é um debate necessário também. Porque nós temos que punir os executores da corrupção, mas não se pode penalizar os trabalhadores, os técnicos, os engenheiros e a própria economia.

JC – E como fica a posição do partido em relação à CPMF?

Luciana – É preciso que se diga que a proposta do governo é que seja um imposto temporário. E sirva exatamente para cobrir o déficit da própria Previdência e da Saúde, que é também um problema estrutural no País. Então achamos que a CPMF, sendo temporária, é necessária. Por que é preciso cortar gordura, mas não a ponto de paralisar os serviços essenciais da população.

JC – Esses temas não vão contra às bandeiras históricas do PCdoB?

Luciana – Por isso que nós não somos a favor da reforma da Previdência agora. Nós não votamos no fator previdenciário. É claro que na medida em que estamos na base do governo, nossa posição é avaliar. Mas a princípio, nós temos dito claramente que achamos incorreta a pauta da reforma da Previdência para o momento. Agora, a CPMF é imposto sobre a movimentação de quem tem conta em banco. Não é exatamente uma agenda contra o trabalhador. Diferentemente da reforma da Previdência.

JC – O PCdoB vai ter candidato em Olinda?

Luciana – Estamos construindo com muita calma. Não necessariamente teria que ser o PCdoB. Não é um projeto pessoal, é um projeto político das cidades, que precisam mais do que nunca melhorar a qualidade de vida. Nós estamos procurando debater esse assunto programaticamente para a partir daí lutar pela unidade das nossas forças, que sempre foi para nós algo muito caro.

JC – A senhora tem a pretensão de disputar a prefeitura? Pode se afastar da presidência do PCdoB?

Luciana – Olinda é a minha vida. Então, esse é um debate que está posto. E mesmo com a presidência nacional do partido, nós vamos fazer a avaliação desses desafios. Existem muitos casos desses no Brasil todo. Nosso saudoso Eduardo Campos era presidente nacional do partido e era também governador. A princípio, não haveria contradição. Mas isso é uma construção política. Estamos abertos para que, no contexto do leque de forças do nosso campo, ver quem reunirá mais condições para termos êxito no resultado eleitoral.

JC – O PT tem feito gestos para o PCdoB em Olinda e já ofereceu até a vice. Essa aliança é possível?

Luciana – Nós estamos abertos para todas as construções políticas desde que isso seja uma construção de muitas forças. Até julho, muitas mudanças haverão. Até porque as eleições serão muito diferentes este ano. O período de campanha vai ser curtíssimo, não vai ter financiamento de campanha privado. Muitas variáveis ainda estão em desenvolvimento até o prazo das convenções.

JC – Com o PSB, que está se colocando como oposição, ainda é possível um entendimento?

Luciana – Essas são coisas que estão em construção. Todas as candidaturas do nosso campo são legítimas. Naturais até. A gente vê isso com paciência para poder, lá na frente, construir convergências. Esse tempo todo em que o PCdoB esteve a frente da prefeitura, o PSB participou do nosso governo.

JC – A candidatura de Antônio Campos causa algum desconforto ao PCdoB, que sempre foi aliado do PSB no Estado?

Luciana – Temos uma aliança que para o PCdoB é uma das mais programáticas. Historicamente, nossa afinidade política sempre foi com o PSB e o PT. A relação com Arraes vem até antes de o PT existir. Nós vamos lutar até as últimas consequências para esse ambiente de unidade política. Esse é o nosso espírito.

JC – No Recife, há um movimento que defende um vice do PMDB para Geraldo Julio. O PCdoB gostaria de continuar na vice?

Luciana – Natural que a gente tenha esse desejo. Pela questão da continuidade de um projeto político exitoso. Uma experiência que Luciano Siqueira, com Geraldo Julio, tem vivenciado. Mas nós ainda não tivemos nenhuma conversa nesse sentido, de mudança dessa construção política que nós já fizemos lá atrás.

JC – A troca da vice poderia prejudicar a aliança entre os dois partidos?

Luciana – Cada coisa a gente discute a seu tempo. Não tivemos nenhuma conversa com o PSB sobre isso. Então não tem porque a gente antecipar qualquer avaliação por que isso vai passar por uma discussão coletiva entre nós. Não tem nenhuma definição sobre isso.

JC – Hoje, a disposição do PCdoB, então, é apoiar a reeleição do prefeito?

Luciana – Claro. Nós somos do governo. Temos o vice-prefeito.

JC – Então uma eventual aliança com o PT no Recife estaria descartada?

Luciana – O que nos move são os projetos políticos. Nós temos afinidade com o PT. Tanto que apoiamos a presidente Dilma mesmo na adversidade, independente de popularidade. Nós não sabemos qual será o projeto eleitoral do PT, que também está em construção. Não tem como definir posições sem ter evoluído no processo de discussão das próprias alternativas que estão em curso na discussão do Recife. A princípio, nós vivenciamos esse período todo com Geraldo Julio e temos a vice prefeitura. Essa é a aliança que está posta hoje.