Gentili, Michele e o efeito manada

Gentili, Michele e o efeito manada
MicheleDP
por Silvia Bessa/foto Annaclarice Almeida
Para o Diário de Pernambuco
 
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O processo que a pernambucana Michele Maximino move contra o apresentador Danilo Gentili por ter feito piada na TV comparando-a a um personagem de filme pornô não diz respeito só a ela. O caso que está sob julgamento, e cuja primeira audiência se deu ontem em Olinda, deve ser pensado além da família formada por Michele, o marido Ederval e os filhos Matheus, Gabriel e Mariana. Merece ser debatido em sala de aula de ensino médio e incluído como tema de atualidades porque nele está uma série de exemplos de como a inconsequência pode transformar a vida das pessoas e do meio. Nada tem a ver com moralismo, feminismo, liberdade de expressão ou maturidade do país para entender humor. O encadeamento dos acontecimentos fala por si e como diante de fatos não há argumento listo alguns:

A inconsequência fez com que Michele se mudasse com a família para Jaboatão dos Guararapes, na Região Metropolitana do Recife; as ruas de Quipapá, 25 mil habitantes em média, tornaram-se insuportáveis. Fez com que parte da população de Quipapá seguisse o “efeito manada” e a fizesse vítima de outras piadas, sem considerar o impacto que as chacotas teriam sobre Michele. Provocou uma baixa antecipada no estoque do banco de leite materno com o qual Michele contribuía porque o leite dela secou repentinamente. Prejudicou os bebês que do leite se beneficiariam. Para a própria comunidade, foi negativo porque havia um projeto de lei do vereador Marcelo Ribeiro para criar um banco de leite local e, depois do programa, a ideia não prosperou. E a inconsequência fez com que as campanhas de doação de leite perdessem uma garota propaganda como nenhuma outra. É o que lembro.

Michele rodava três vezes por semana cerca de 80 quilômetros para ir do município de Quipapá para o de Caruaru para doar leite à Maternidade Jesus de Nazareno. Ordenhava cinco vezes e conseguia até três litros por dia. Em onze meses, foram cerca de 420 litros. Na gestação anterior, a de Gabriel, hoje com 5 anos, ela doava mas nunca calculou o volume porque o leite não chegava a ser pasteurizado no Instituto Materno Infantil (Imip) e era entregue direto às mães de bebês que precisavam. Foi aí que em um programa exibido em 3 de outubro de 2013 Danilo Gentili disse em rede nacional que “em termos de doação de leite, ela já tá quase alcançando Kid Bengala”, numa menção a um personagem do ator pornô Clóvis dos Santos. O colega de palco Marcelo Mansfield completou a chacota dizendo: “Isso não é uma espanhola, é uma América Latina inteira”. Espanhola é expressão usada para sexo com seios. A foto de Michele foi estampada no programa.

Michele conta que passou a sair nas ruas de Quipapá e ouvir as pessoas dizendo: “olha a vaca”. “Foi muito difícil para mim. Uma desmoralização de minha vida”, contou-me ontem, enquanto esperava o início da audiência e a chegada do próprio Gentili para se defender. O marido diz que começou a receber na web insultos de adolescentes, alunos de 13 e 14 anos, com frases semelhantes a essa que dizia assim: “Achei foi bom o Danilo Gentili chamar a sua mulher de vaca pois é o que ela é”. “Imprimi como prova da repercussão”, contava nesta quarta-feira Ederval, que foi para Quipapá ensinar História na rede municipal de ensino.

Ontem Michele estava como autora da ação à espera do julgamento. Abraçava os próprios braços para disfarçar a tensão para a audiência. Estava cuidando de Mariana, de dois anos, e tinha o apoio de amigos. De Quipapá, veio Josete Maria Ribeiro, de 32 anos, o marido Marcelo Ribeiro e os trigêmeos Luiz Gabriel, Luiz Raul e Luiz Davi, de dois meses. “Fiquei no Imip dois meses e sei o quanto o leite materno faz a diferença para prematuros”. Duas pessoas testemunharam em favor de Michele.

Danilo não foi para a audiência. Em seu lugar, estava um advogado. Ele responderá por carta precatória, em São Paulo. Não há data para acontecer, assim como não há prazo para divulgação do resultado. A juíza que presidiu a sessão de ontem, Regina Célia Maranhão, determinou que a audiência fosse privada. Do lado de fora, além da Imprensa, ficaram representantes das entidades públicas e não-governamentais que defendem o direito das mulheres. Paula Viana, do Grupo Curumim, fez sua análise. “O que a gente tem de debater é a liberdade de opressão dos que usam o humor como fachada para agredir gratuitamente”. Concordo e continuo achando que o caso de Michele serve para discutir inconsequência, irresponsabilidade e impacto sobre a vida alheia.