Luciana na Carta Capital: Apelo à união

Luciana na Carta Capital: Apelo à união

O campo progressista precisa reagir às articulações do PSDB e do “centrão”, afirma luciana santos, do PCdoB a Rodrigo Martins
Por Rodrigo Martins

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Com o apoio do “Centrão”, o presidenciável tucano Geraldo Alckmin inicia a disputa com vantagem no horário eleitoral gratuito. Somadas as cotas reservadas às dez legendas que devem integrar a coligação liderada pelo PSDB, ele pode ter mais da metade das duas horas diárias na tevê e no rádio, incluídos os programas eleitorais e as inserções publicitárias ao longo do dia. O movimento só reforça a necessidade de os partidos de esquerda unirem forças o quanto antes, avalia a deputada federal Luciana Santos, presidente do PCdoB. “Não dá para assistir aos adversários darem passos importantes, enquanto a gente joga parado, acreditando que o segundo turno está garantido.”

CartaCapital: Alckmin conseguiu ampliar o leque de alianças e garantir maior tempo no rádio e na tevê. Diante desse quadro, não é arriscada a dispersão das candidaturas de esquerda?

Luciana Santos: Sem dúvida. Há um certo tempo defendemos não apenas a criação de uma frente ampla, mas a construção de uma estratégia conjunta para vencer as eleições. Quando o candidato do establishment se impõe com um leque de alianças tão forte, fica confirmada a tendência de união das forças que atuaram para derrubar Dilma Rousseff. Não podemos subestimar Alckmin. Em 1994, a esquerda fragmentou-se em muitas candidaturas. Pelo PT, Lula saiu com Aloizio Mercadante. Pelo PDT, Leonel Brizola disputou ao lado de Darcy Ribeiro. Eram todas chapas “puro- -sangue”. Resultado: Fernando Henrique Cardoso não teve dificuldade para vencer as eleições no primeiro turno.

CC: A esquerda corre o risco de não chegar ao segundo turno?
LS: Mais do que nunca, somos chamados à responsabilidade, principalmente o PT de Lula, que mesmo preso lidera as intenções de voto, e o PDT de Ciro Gomes, que quase conseguiu deslocar as forças do centro para a sua candidatura. Esses são dois atores decisivos, que precisam ter algum tipo de diálogo e entendimento. Do contrário, só teremos candidaturas para marcar posição. Hoje, temos muita unidade política, mas essa unidade precisa traduzir-se em uma estratégia eleitoral comum.

CC: Algumas lideranças do campo progressista minimizam as chances de a esquerda sofrer uma derrota no primeiro turno e falam em alianças só na segunda etapa. Como avalia essa leitura?
LS: Em princípio, é muito factível um candidato do nosso campo no segundo turno. Mas isso é algo potencial, e não uma certeza. Mesmo tentando se descolar da imagem de Michel Temer, altamente impopular, as forças que o conduziram ao poder tentarão legitimar nas urnas a agenda neoliberal imposta à população nos últimos anos. Para os tucanos, é até interessante a presença do ex- -ministro Henrique Meirelles na disputa. Dessa forma, Alckmin pode dizer que não é o candidato de Temer, embora proponha a mesmíssima receita para o País. De nossa parte, não podemos confiar que o simples fracasso do governo Temer nos coloca em vantagem. Temos de enfrentar o debate, e a tarefa fica mais difícil com essa dispersão das candidaturas.

CC: Por que a construção da frente ampla está travada?
LS: Não é por falta de diálogo. A gente até conversou muito. Publicamos um manifesto programático para a reconstrução do Brasil, documento redigido pelas fundações dos partidos. Criamos uma frente parlamentar. Promovemos atos pela democracia. Mas é preciso avançar mais, até porque o prazo para o registro das candidaturas está se aproximando. É preciso mover as peças do xadrez. Não dá para assistir aos adversários darem passos importantes, enquanto a gente joga parado, acreditando que o segundo turno está garantido. Na prática, percebo que os interesses partidários têm prevalecido sobre os interesses do País.

“Ciro e Lula são atores decisivos”

CC: Em que medida a prisão de Lula atrapalha esse jogo?
LS:: Até pelo fato de ser vítima desse processo, Lula tem todo o direito de resistir. O fato de continuar a liderar as pesquisas e ser o maior cabo eleitoral só expõe o fracasso dos golpistas. Quanto mais o povo sofre, mais vem a lembrança do legado do governo dele. A dúvida é: que construção política precisa ser feita para que esse legado se traduza em uma vitória. Se Lula for candidato, a unidade de nosso campo estaria garantida. Precisamos, porém, analisar todos os cenários. Se ele for mesmo impedido, o que vamos fazer? O PT acha que chega ao segundo turno, não importa quem seja o candidato. A campanha de Ciro Gomes está nas ruas, muito bem-posta. Manuela D’Ávila, a candidata do PCdoB, tem travado o bom combate. O principal obstáculo é convencer os partidos a abrir mão de seus projetos em prol de um arranjo capaz de vencer as eleições. É preciso um maior desprendimento.

CC: Qual é o arranjo possível?
LS: Temos de colocar os nomes na mesa e avaliar o cenário.

CC: Até o momento, a única que sinalizou a intenção de abrir mão da própria candidatura em prol de uma aliança foi Manuela D’Ávila. Nenhum dos demais fez qualquer aceno nessa direção.
LS: Parece-me que alguns segmentos confiam cegamente que o fracasso do governo Temer facilitaria tudo. Não é bem assim.

“Temos unidade política, mas é necessário traduzi-la em estratégia eleitoral”

CC: O governador do Maranhão, Flávio Dino, chegou a mencionar Ciro como um candidato capaz de aglutinar forças. Dentro do PCdoB, existe algum consenso sobre quem seria o melhor nome para encabeçar a chapa do campo progressista?
LS: Pode ser Ciro, pode ser Manuela, pode ser outro nome. O PCdoB não quer ser um óbice para a união. Ao contrário, deseja uma candidatura única para o nosso campo. A questão é que isso passa, necessariamente, pelo Ciro e pelo PT. Não dá para imaginar uma frente ampla sem um desses atores. A permanecer a dispersão dessas forças, vamos levar adiante a campanha de Manuela. Estamos convictos, porém, de que o momento exige unidade. A história nos cobrará a responsabilidade do que fizemos para reagir ao que ocorre hoje. Estamos diante de uma ofensiva neoliberal muito forte. Temos chance de vencer as eleições, mas, se não estivermos unidos, dificilmente vamos lograr êxito. •